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É de confundir!

É de confundir!
(“A s’y meprendre!”, 1883)
AUGUSTE VILLIERS DE L’ISLE-ADAM

Numa cinza manhã de novembro, eu ia descendo pela beira do rim em passo apressado. Uma garoa fria molhava o ar. Passantes negros, abrigados em guarda-chuvas disformes, se entrecruzavam. O Sena amarelado carregava seus barcos de mercadorias parecidos com besouros. Nas pontes, o vento fustigava bruscamente os chapéus, cujos donos lutavam com o espaço para salvá-los, fazendo aqueles gestos e contorções sempre tão penosos para o artista.
Minhas idéias eram pálidas e brumosas; a preocupação de um encontro de negócios, aceito na véspera, atazanava minha imaginação. O tempo era curto: resolvi me abrigar debaixo da marquise de um portão, de onde seria mais cômodo fazer sinal para um fiacre.
Na mesma hora notei, bem ao meu lado, a entrada de um prédio quadrado, de aparência burguesa.
Ele tinha se erguido na bruma como uma aparição de pedra, e apesar da rigidez de sua arquitetura, apesar do vapor sinistro que o envolvia, percebi de imediato um certo ar de hospitalidade que serenou meu espírito.
“Sem a menor dúvida”, pensei, “as pessoas que moram aqui são gente sedentária! Essa soleira é um convite para parar! A porta está aberta?”
Então com a maior polidez do mundo, satisfeito, chápeu na mão – até mesmo meditando em um madrigal para a dona da casa -, entrei, sorridente, e logo me deparei, no mesmo nível, com uma espécie de sala de teto envidraçado, de onde caía a luz do dia, lívida.
Nas colunas estavam pendurados roupas, cachecóis, chapéus.
Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos.
Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar.
E os olhares eram sem pensamentos, os rostos eram da cor do tempo.
Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles.
E então percebi que a dona da casa, com a cortesia acolhedora qeu eu estava contando, era ninguém menos do que a Morte.
Olhei para meus anfitriões.
Decerto, para escapar dos aborrecimentos da vida azucrinante, a maioria dos que ocupavam a sala tinha assassinado seus corpos, esperando, assim, um pouco mais de bem-estar.
Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, escutei o ruído surdo de um fiacre. Ele parou defronte ao estabelecimento. Fiz a reflexão de que meus homens de negócios estavam esperando. Virei-me para aproveitar a boa fortuna. De fato, o fiacre acabava de vomitar, na soleira do prédio, colegiais de pileque, que precisavam ver a Morte para acreditar nela.
Olhei para o fiacre vazio e disse ao cocheiro:
“Passage de l’Opéra!”
Um pouco depois, nos bulevares, achei o tempo mais encoberto, sem nenhum horizonte. Os arbustos, vegetações esqueléticas, pareciam indicar vagamente com a ponta dos galhos negros, alguns pedestres aos policiais ainda sonolentos.
O carro ia apressado.
Pela vidraça, os passantes me davam a impressão de água correndo.
Chegado ao meu destino, pulei para a calçada e peguei a passagem, repleta de rostos preocupados.
No final do corredor, bem na minha frente, reparei na entrada de um café – desde então consumido por um famoso incêndio (pois a vida é um sonho) -. relegado ao fundo de uma espécie de galpão, debaixo de uma arcada quadrada, de sinistra aparência. Os pingos da chuva que caíam no vidro de cima escureciam mais ainda a pálida claridade do sol.
“É aqui”, pensei, “que me esperam os meus homens de negócios, de copo na mão, olhos brilhantes e desafiando o Destino!”
Então virei a maçaneta da porta e me deparei, no mesmo nível, com uma espécie de sala onde a claridade do dia caía do alto, lívida, pela vidraça.
Em colunas havia roupas, cachecóis, chapéus pendurados.
Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos.
Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar.
E os rostos eram da cor do tempo, os olhares eram sem pensamentos.
Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles.
Olhei para esses homens.
Decerto, para escapar das obsessões da insuportável consciência, a maioria dos que ocupavam a sala tinha, muito tempo antes, assassinado suas “almas”, esperando assim um pouco de bem-estar.
Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, a lembrança do ruído surdo do carro voltou ao meu espírito.
“Com toda a certeza”, pensei, “aquele cocheiro deve ter sido atacado, no correr do tempo, por uma espécie de estupor, pois simplesmente me trouxe, depois de tantas circunvoluções, ao nosso ponto de partida! Todavia, confesso (caso haja um equívoco), O SEGUNDO OLHAR É MAIS SINISTRO QUE O PRIMEIRO!...”
Então em silêncio fechei a porta envidraçada e voltei para casa, firmemente decidido – desconsiderando o exemplo e pouco me importando com o que pudesse me acontecer – a nunca mais fazer negócios.


Tradução de Rosa Freire D’Aguiar
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