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Rei Jeremias, o perverso.

Lá estava ele, ajoelhado no banco do trem. As mãozinhas gordas, forçavam a janela para baixo, tentando abrí-las, para que pudesse por a cabeça para fora, ou para que sentisse o vendo no rosto.
Fazia um choro birrento para que o pai o ouvisse. Para que atendesse às suas vontades. As lágrimas escorriam pela bochecha rosada e gorda.
O Pai pareceu-me um cara rabugento. Desses pais que perderam o dom de ser pai para a "modernidade" da vida. A necessidade do emprego, do dinheiro, da posição social. Pareceu-me bravo. Carrancudo. Sem paciência com o filho que nesse momento aumentava o drama.
Virou sobre os chinelos, apoiados no banco, e pediu ao pai que comprasse o doce. Sem muita vontade ele atendeu.
Ao mesmo tempo que achei graça no menino gordo forçando a janela, me trouxe tristeza vê-lo chorando para ter um doce. Senti tristeza por imaginar que ele ainda não tinha condições de satisfazer as vontades e o pai parecia não ligar para elas. Reparei rosto do garoto. Parecia um tipo bravo. Bochechas e queixo grande, cabelo raspado nos lados e atrás e topete curto despenteado. A camiseta laranja foi coberta pelo colete de lã cinza e a barra cobria a cintura da calça de moleton. Nós pés os chinelos azuis de dedo.
Lá estava ele olhando o mundo passando ... tentei imaginar o que ele pensava, talvez apenas admirasse as luzes dos carros, talvez olhava os guetos mal iluminados. Lembrei do quanto eu olhava a paisagem, de tudo o que eu pensava quando viajava e das lágrimas solitárias. Ele ainda chorava. Não aos berros, mas um choro contido, apenas lágrimas.
Elas me gelavam a carne. Uma simples imagem, como pode gerar tanto sentimento. Tentei prever se aquele garoto que chorava para o pai comprar o doce, no futuro faria alguém chorar por outro doce. Se seria um bom ou um mal pai ... não sei.
Quando estava começando a sentir muita raiva do pai, o garoto ofereceu o chocolate. O pai riu e o garoto riu de volta.
Dessa vez a lagrima foi minha.

Pearl Jam

Em casa
Desenhando figuras
De topos de montanhas
Com ele no topo
Sol amarelo limão
Braços erguidos em V
Os mortos estendidos em poças de cor marron embaixo deles

Papai não deu atenção
Para o fato de que a mamãe não se importava
Rei Jeremias, o perverso
Governou seu mundo

Jeremias falou na aula de hoje

Me lembro claramente
Perseguindo o garoto
Parecia uma sacanagem inofensiva
Mas nós libertamos um leão
Que rangeu os dentes
E na hora do intervalo quebrou a fama de maricas
Como eu poderia esquecer
E me acertou com um soco de esquerda de surpresa
Meu maxilar ficou machucado
Deslocado e aberto
Assim como no dia
Como dia em que ouvi

papai não dava carinho
e o garoto era algo que mamãe não aceitaria
Rei Jeremias, o perverso
Governou seu mundo

Jeremias falou na sala de aula hoje
Woo
Tente esquecer isto
Tente apagar isto
Do quadro negro.


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