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O fim da criação

Falando em escrever, isso era algo que esteva escrito nas entrelinhas, talvez a ultima vez que isso ocorreu...

Era um fenômeno estranho, não que a capacidade de criar foi destruída, ela simplesmente evanesceu. Ninguém percebeu isso de imediato, só sentiram a sua falta, como nos jogos, quando reclamaram da falta de musicalidade da torcida, por quê não cantam?, por quê não criam músicas novas? e ninguém tinha uma resposta, talvez porque também não tínhamos mais a capacidade de formular teorias caso contrário alguém teria elaborado uma que observasse como as músicas produzidas naquele período vinham tendo os seus acordes resumidos a apenas meia dúzia de notas, quando muito. Compare as partituras de Villa Lobos ou John Coltrane a qualquer outra coisa produzida recentemente.

O primeiro indício, que ninguém percebeu foi quando as refilmagens começaram a lotar as salas de cinema. Lembra-se disso?  Os filmes sobre quadrinhos foram um efeito paralelo, era a coisa mais interessante que a indústria cinematográfica produzira. Não eram ruins, longe disso, mas tudo era baseado em um trabalho que já existia. Havia algo feito sobre novos livros, aqueles eram os últimos autores criativos que criavam novos universos, personagens e enredos. Aos poucos eles também foram minguando e os próximos livros pareciam sair de máquinas de salsichas; de um lado colocava-se ingredientes parecidos - quando não iguais - e do outro lado saia o livro, ora com mais tempero, ora mais insosso, mais sempre sobre os mesmos ingredientes que em vários eram bruxos, então vampiros depois vários sobre guerreiros, houve aquele que sempre falava de um assassinato ligado a sociedades secretas e conspiração, eram bons, mas depois do primeiro, eram salsichas que não fariam não algum se viessem acompanhado de novidades, mas não era isso que ocorria.

Aqui o efeito era percebido nas novelas, que vez ou outra trazia elementos conceituais, inovadores, mas em sua grande maioria se arrastava em refilmagens apenas com novos aparatos visuais. Não se apresentavam personagens elaboradas, apenas repetições. Com pequenas mudanças no enredo como sendo o ápice da nossa capacidade criativa. Os grandes escritores foram partindo e ninguém os substituía. Havia sim muito interesse pela leitura de seus trabalhos até um primeiro momento, mas ninguém se interessava pelos poucos que assumia o controle da pena e a partir de então a leitura também foi minguando.

O que ocorreu é que de alguma forma nós perdemos a nossa capacidade de criar. Não falo no sentido figurado, é real, uma deficiência que afetou a todos. De alguma forma não podemos mais contar histórias. Essa falta de criação se retro-alimentava livros deixavam de ser escritos e com isso leitores deixavam de ter sua imaginação e capacidade de escrever alimentadas, enquanto os jornais e revistas perdiam bons repórteres e também leitores.

O mesmo para filmes, novelas e séries, mas não era apenas nosso entretenimento e informação que estavam afetadas, mas também a nossa condição humana foi afetada - e esse é o mais grave - através da perda das histórias da humanidade. Elas não deixaram de existir, nos às conhecíamos, mas sem nossa capacidade de criar, as pessoas não conseguiam mais imaginar e deixavam de, no abstrato de sua mente, as vivenciar.

Deixamos de evoluir, não se tinha mais novas tecnologias sendo desenvolvidas, as viagens espaciais e os carros voadores nunca chegaram a ocorrer, pois perdemos a nossa fantasia. Então depois passamos a minguar, pois deixamos de compartilhar os nossos conhecimentos mais básicos. Já desaprendemos a ler, a escrever, a criar e então passamos a desaprender a cozinhar e a cultivar. Não sabemos mais como cuidar das nossas plantações, pois não compartilhamos os conhecimentos sobre como fazê-lo, não sabemos combater as pragas não temos mais os conhecimentos antigos da humanidade e não sabemos adquirí-los por conta própria, pois perdemos nossa capacidade de raciocínio.

Desprovido de nossas característica mais humana, perdemos também a nossa capacidade de convívio, não sabemos mais repassar tudo o que aprendemos como sociedade, não podemos ensinar e não podemos aprender nada novo e é por isso que registro esses fatos, como epitáfio de nossa espécie ou como registro de uma nova etapa.

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