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Tertúlia na Primavera


Foi na solidão fria da noite que eu encontrei conforto para poder chorar a saudade que ficou do meu amigo Cursino, muito lembrado justamente por sua imagem solitária e rechonchuda. Ria franzindo o nariz e espremendo os óculos em suas bochechas gordas quando alguém lhe fazia troça.

A grandiosidade da cidade a minha volta fica menor quando me vem na lembrança a sua simplicidade. Como no dia em que eu o telefonei afobado para falar do trabalho e ele se adiantou em saudar esse amigo que aqui escreve.

Esse autêntico caipira pirapora - ele era exatamente como se descrevia - era um homem muito simples sim, mas muito inteligente e hábil tanto com as palavras quanto com os sentimentos que expressavam e foi justamente esse o maior vínculo de nossa amizade.

Sinto me muito honrado e também orgulhoso por ter sido dele um pupilo. Trocavamos contos, falavamos sobre livros política, faziamos piadas. Hoje me recordo orgulhoso dos muitos contos que recebi dele, da alegria em compartilhar comigo os seus textos. Lembro-me de quando me emprestou um Allan Poe e quando me apresentou um disco do Yo-Yo Ma no Brasil.

Ainda manhtenho com muito carinho tanto o livro de contos e poesias que publicou textos dele, quanto o livro de fotografia que me deu. Ambos com dedicatórias a esse amigo. Cursino não era Machado, sua obra certamente não terá o mesmo impacto na cultura do Brasil como a de Machado, mas teve sim impacto na minha cultura, no meu hábito de escrever e a sua simplicidade vai sempre retumbar em minha cabeça: Olá meu amigo, como vai? disse ele naquele telefonema...

Tudo isso era muito frequente, mas ainda guardava um certo distanciamento e solidão. Solidão somente entre nós, fora de sua casa. Certamente em sua família o Cursino era uma pessoa muito bem quista. A foto da família sorrindo, que exibia como papel-de-parede de seu computador, mostrava a alegria que tinha na família.

Tomamos cerveja juntos um única vez e a minha maior tristeza hoje é pensar que a poucos dias atrás eu o vi on-line no MSN e pensei em trocar algumas palavras com aquele saudoso amigo.


Tristeza que disperesei algumas vezes vendo seu perfil no site em que escrevia: http://www.lunaeamigos.com.br/nossospoetas/roberto_moura.htm

Tristeza.

Eu nunca tive uma opinião certa sobre o que acontece conosco depois que passamos dessa vida, mas hoje desejei por muitas vezes, do fundo do meu coraçao, que meu amigo Cursino pudesse sentir o quanto é bem quisto por todos nós e o quanto deixou em mim saudade.

Saudade menor somente que a alegria por tê-lo conhecido e compartilhado bons momentos com esse querido caipira.

por: Conrado Tramontini
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por: Conrado Tramontini

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