6 de fevereiro de 2016

Meu pedido de noivado.

Não há melhor forma de manter uma memória que a escrever, e não recordação mais precisa, porém efémero, que nossa memória.
Recordo-me de sentir a expectativa pela abertura das cortinas que se assomava dentro do teatro e pela qual eu já estava acostumado. Eu estava ansioso por outra coisa repetidamente colocava a mão em meu bolso para sentir o canto do metal em meus dedos e então voltava para ajustar a câmera fotográfica. Eu ainda tinha dúvidas se deveria realmente fazê-lo da forma que eu estava premeditando. Até aquele momento ninguém sabia, somente eu. Chequei os bolsos mais algumas vezes.
A decisão de agir já estava tomada havia algum tempo. Sim, eu iria pedi-lâ em casamento, mas quando, como e onde foram respostas que vieram depois, com algumas sugestões sutis.
Acho que uma primeira sugestão foi quando estava assistindo, descompromissado, um reprise de Friends e o Ross e a Rachel invetam uma história sobre um pedido de noivado e depois ele conta como teria feito o pedido e ele descreve uma cena no planetário, com lírios, Fred Astaire e o pedido escrito pelo desenho das estrelas e a Rachel comovida responde que “teria sido muito difícil dizer não”, eu já tinha ciência disso, mas ficou mais evidente de que deveria ser um momento especial para nós.
Por ela ser bailarina, por termos nos conhecido pelo ballet, eu considerei que seria valioso para nós dois que o momento estivesse relacionado ao ballet, como ela teria uma apresentação no meio do ano no teatro Armando de Ré em Suzano, lugar em que nos vimos pela primeira vez e frequentamos tantas outras vezes, onde estariam pessoas que estavam tão envolvidas com nossa história, aquele provavelmente era o lugar ideal e o solo que ela apresentaria ali, o momento ideal.
Revisitei meus bolsos, e com tudo isso voltando a minha mente decidi, sim, seria ali. Eu estava fotografando o espetáculo e pedi ao meu sobrinho que assim que ela começasse o solo, que ele viesse ao meu encontro, para me substituir como fotógrafo.
Bolsos, mais uma vez, não preparei um texto, tinha tudo muito vivo em minha cabeça, as razões de estar ali e porque ali.
Então escutei o piano de Herbie Hancock e a voz aguda da Christina Aguilera.
“Eu estive em muitos lugares, durante minha vida, cantei muitas canções e fiz rimas ruins”
Bolsos novamente, Matheus chegou para me substituir.
“Não há mais ninguém importante para mim, meu bem, você não consegue ver através de mim? Porque nós estamos sozinhos agora, e eu estou cantando minha canção pra você”
Ao som de Song for you, uma de nossas músicas preferidas e cheia de significados para nós, me preparei para subir no palco, interrompe-la.
“E eu amo você pela minha vida, porque você é minha amiga, e quando minha vida acabar, eu me lembrarei de quando nós estávamos juntos, nós estávamos sozinhos e eu estava cantando minha canção pra você”
Cheguei até o ponto do palco onde ela estava, ela levantou os olhos desconcertada e perdida, com uma expressão cheia de dúvidas, continuou a coreografia, mão estendida, vestido preto, um, dois, três passos para trás, aprumou-se, ainda perdida.
Então a música acabou e eu a plenos pulmões comecei a dar o meu recado. Infelizmente, como eu disse, a memória é efémera, não me lembro exatamente como comecei, mas lembro claramente de ter explicado o que aquilo significava para mim.
Recebi um microfone e continuei dizendo que nos últimos anos - em relação a 2011 - eu aprendi a viver e conviver com o ballet, atividade tão amada pela minha irmã e aprendi o siginificado daquilo para a minha irmã e para aquelas pessoas que entraram na minha vida e se tornaram minhas amigas. Olhei para a coxia e vi tantos rostos conhecidos, tanta gente querida por nós.
Lembro claramente de ter dito que eu aprendi que diariamente aquelas meninas faziam mágica! Sim mágica ao transformam suor, esforço, dor e cansaço em tanta beleza. Então voltei aos bolsos e tirei uma moeda, cinquenta centavos (a tenho até hoje) e com a moeda entre os dedos expliquei que eu não sabia fazer mágicas, que a única coisa que eu fazia era brincar com a irmãzinha dela e fingia, de uma forma completamente tosca, que a tirava da orelha dela - para mim, a graça estava em não tentar fazer parecer uma mágica - eu não sabia fazer mágicas, mas então disse que podia tentar mais uma, fechei a moeda em minhas mãoes e pedi a ela que assoprasse e assim que ela assoprou, troquei a moeda pelo outro objeto que tinha entre os dedos, exibindo orgulhoso uma aliança.
Examinei então a platéia, era difícil enxergar os rostos, mas ao microfone, eu disse que sabia que tinha ali bons amigos, parentes - vi na cabine de som a Tati, o Valdir e a Mari Zeller, e se não me engano, o Luccas - disse também que os pais dela estavam por ali, que eu havia sido indelicado de não pedir ao pai, mas que sabia que ele confiava a filha esse direito e com exatidão eu disse que “se ela aceitar, tenho certeza de que ele também permitiria”. O pedido não foi feito de forma explicita pelas palavras, mas os olhares e gestos deixaram isso claro e ela disse que aceitava e me abraçou com emoção.


P.s.
Desse dia temos poucas fotos, o Matheus me contou depois que, emocionado, não conseguiu fotografar, a filmagem teve problemas e desde então, minha memória tem me lembrado diariamente as emoções daquele dia e é exatamente por isso que eu quero registrar aqui alguns detalhes relacionados ao dia dezoito de Junho de 2011, o dia de nosso noivado.
Sobre Friends, foi na Temporada 8, Episódio 18, "The One In Massapequa"

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por: Conrado Tramontini
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