1 de junho de 2014

Futebol é o ópio do povo?

Eu não sou um fã do futebol, nunca me importei muito com ele e já expliquei isso em "Até onde o futebol me importa". Esse desapego origina-se no ao fato de que eu associava o futebol a tão falada política do "Pão e Circo" e também ao fato de querer ver outros esportes terem maior atenção.

Com a proximidade da copa há uma vertente (em pequena escala, mas que faz se parecer gigante) de atacar o futebol, de desprezá-lo, grita-se o fato de um professor receber uma salário menor que o do Neymar, diz-se que o futebol aliena e o coloca como culpado por todos os nossos problemas e junto com ele a Copa.

Esse extremismo contra o futebol me incomodou tanto quanto o extremismo a favor, pois o futebol é uma característica cultural do brasileiro e é o seu maior entretenimento e condenar o futebol, exigir o seu banimento, é uma forma de querer anular ainda mais as culturas populares, retirar outro teco da nossa identidade, características já tão escassas no Brasil, exacerbando nosso "Complexo de Vira-lata", definido por Nelson Rodrigues na frase abaixo.
"o brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima"
Se colocado da forma correta - como uma forma de entretenimento e não como a única forma, nem como a única coisa que importa - o futebol tem excelentes paralelos com nosso dia-a-dia e nossa política.

Uma excelente observação a ser feita é o quanto um bom líder, um bom gestor, pode nos levar ao sucesso: a seleção brasileira vinha apresentando resultados pífios sob a liderança do técnico Mano Menezes, até que ele foi substituído no final de 2013 pelo Luis Felipe Scolari (o Felipão). Em 6 meses Felipão conseguiu mudar completamente o desempenho da seleção, conquistando a Copa das Confederações. Esse exemplo se repete nos clubes, nas presidências dos clubes e para além deles, na gestão privada e pública.

Outro ponto a ser levantado é que estudos comprovam que o resultado da seleção na Copa do Mundo não afeta o cenário político:

  • 1970, Seleção ganhou: Governo Militar foi retirado; 
  • 1998, Seleção perdeu na França: FHC reeleito; 
  • 2002, Seleção ganhou no Japão/Coreia: FHC não foi reeleito e o Lula venceu;
  • 2006, Seleção é derrotada na na Alemanha: Lula reeleito;
  • 2010, Seleção perde outra vez na África do Sul: Dilma (do mesmo partido do Lula) é eleita.

Em 2014 a Copa traz o novo fato de ocorrer no Brasil, então apesar de a seleção não estar relacionada ao cenário político, não sei traçar um paralelo quanto a organização do evento e ações relacionadas a ele, que são indicadores diretos da capacidade dos governos atuais.

O que falta é envolvimento para que as coisas sejam feitas da forma correta, eu já disse que "Manifestar-se é um início, mas não é o agente de mudanças". Pois só nos momentos finais que as manifestações foram feitas e parece que apenas uma parte está contra a Copa no Brasil e portanto ela será uma realidade. Sempre disse que já recebi convite para inúmeras manifestações, mas só agora recebi um convite de um amigo para um grupo de idéias, o que me leva a entender que essas pessoas querem aparecer e não se importam muito em melhorar nossa sociedade.

Para encerrar, não considero o futebol o vilão de todos os nossos problemas, pelo contrário acredito que ele pode nos dar paralelos muito interessantes e nossos problemas são sim resultado direto de nossas ações, como no paralelo que fiz com as manifestações em Kiev; Eu acredito que temos outras prioridades além da Copa, mas não devemos ser tão singular a ponto de focarmos apenas em um tema, principalmente se não o fizemos no passado.

O Neymar é um garoto propaganda, que vende produtos através do futebol, para milhões de pessoas, nos momentos que ele aparece algo pouco além de 90 minutos, acho um absurdo o salários dos jogadores, mas é comércio. Um professor é uma categoria que envolve muitos profissionais (talvez milhões) que trabalham  com educação para um número centenas de pessoas. A comparação do salário, apesar de muito bem vinda, não é "honesta".

Realmente, culpa de o Neymar ser mais importante que um professor, não é dos governos, é nossa!  


por: Conrado Tramontini
Postar um comentário