7 de novembro de 2010

Quadro

O Quadro

Quadro

(Conrado Tramontini)

Nunca me senti tão mal, por não saber pintar, como estou me sentindo agora. Minha mãe sempre elogiou minhas gravuras. Dizia que eram lindas e que eu sabia desenhar muito bem. Coisas de mãe. Não que eu desenhasse mal, mas eram desenhos de criança, feito na ponta de um lápis e uma folha de papel pautada. Branco e cinza. Apenas contornos grossos e duros. Nada de cores, nada de luzes, sombras, sensações ou vida. Diferente das obras de arte que nossa mente pode criar e que nossos olhos podem apreciar.

Queria saber pintar quadros tão vivos como os que vejo. Pintar de verdade aquelas formas, luzes e cores reais, mas o mais perto que cheguei disso foi a fotografia. Através dela, da fotografia, que eu mostro as outras pessoas as belezas e detalhes das pessoas e lugares que meus olhos vêem.

Foi por isso também que minha câmera virou companhia indispensável. Para poder mostrar a beleza, em todos os seus detalhes, do lugar onde eu estive ontem de noite.

Para dizer a verdade não sei exatamente o que eu estava fazendo naquele hotel, aquela noite. Talvez tenha ido para lá por causa da febre, talvez tenha me perdido nas fantasias dos personagens de algum livro em um lugar incomum. Talvez eu estava confortavelmente entorpecido pelo sono.

Nessa viagem, como em todas as outras, eu carregava minha câmera fotográfica, conferi e refiz as fotos algumas vezes, para não perder nada. Queria levar comigo cada momento. Não queria que nenhum detalhe se perdesse, mas por alguma maldição, infortúnio ou gozação, a memória deve ter se danificado no caminho do retorno e todas as fotos se perderam. Então a única esperança de trazer isso comigo seria através da pintura de um quadro reproduzindo o saguão luxuoso com as paredes cobertas pelas tapeçarias escarlates, o velho mobíliario de madeira maciça, coberto pelo estofado de veludo verde - certamente comprado de algum monarca britânico -, banhado pela luz das luminárias de parede, como aquelas de cinema antigo, com o cone de luz escalando a parede manchada, que eu sabia, federia a bolor e fumaça de cigarro.

Engraçado como nada nesse cenário desconhecido pareceu estranho.

Mesmo a aparência de um palácio, que contrastava fortemente com o jardim de inverno com enormes palmeiras, banhadas por fachos de luz brancas, que refletiam nas paredes de vidro, e estrapolava os limites do hotel, subindo para o céu de néon, era uma visão aconchegante.

Mas a minha curiosidade mesmo, foi excitada pelos tipos que zanzavam de um lado para o outro naquele hotel. Não eram malucos e não tinha aparência medonha, eram sim exóticos e incomuns, como se não compartilhassem o mesmo mundo que eu. Desconexos da realidade que não estava presente naquele lugar.

Logo vi sentado bem no chão, perto dos degraus que desciam para o rebaixo, antes das mesinhas adornadas em metal branco do restaurante, esse garotinho oriental, vestido com a túnica alaranjada de monge, cabeça raspada, prostrado diante de um cavalete e uma tela de metal. Estava igual a um pintor, orém, na tela de metal a figura já estava gravada em relevo e ele apenas ficava virando e mostrando orgulhoso as telas. Não se esforçava nem em simular que a tivesse pintado realmente, afinal, não tinha a intenção de enganar ninguém. Quando me viu, sorriu orgulhoso, sem criar, apenas por poder ver e apresentar-me aquelas obras de arte do cotidiano. A cada virada uma figura nova, fincada no metal acobreado. Enquadrei-o direitinho no visor da câmera enquanto mostrava-me a torre Eiffel. O mongezinho e aquela tela doida. Olhava para mim sorrindo, como se estivesse exibindo-se. Enquanto tirava mais algumas fotografias dele, reparei que um senhor sentado na mesa de trás, fazia um proeminente bigode dançar, enquanto me autorizava a continuar fotografando-o.

Velho convencido aquele.

Irritado, eu disse que as fotos não eram dele e sim do garoto. Perguntei se ele já tinha reparado em seu o trabalho, tão empolgado que voltei para o garoto antes mesmo de o bigodudo me dizer que já o tinha admirado por muitas vezes. Uma quantidade de vezes que preferia contar em xícaras de chá, mas não em minutos.

O monge me apontou para uma decoração que estava atrás dele. Uma arca de mármore sobre a qual um grande e assustador urso rugia eternamente. Ainda querendo registrar todos os detalhes daquele lugar, saquei novamente a câmera fotográfica, troquei a lente por uma de longo alcance que eu, havia um tempo, tinha aguardado ansioso para receber e agora a havia recebido. Acabei me distraindo reparando que aquela lente era muito diferente de como eu esperava que ela fosse - acho que uma forma metáforica de me avisar que eu estava vivendo de forma cotidiana, perdendo precioso tempo me preocupando mais em como as coisas eram naquele mundo, do que me preocupando com simplesmente com o fato de que as coisas simplesmente eram, naquele mundo.

Quando voltei ao urso, vi um tigre metendo a pata esquerda em seu focinho. Um tigre branco que mordia-o no pescoço se enrolando sob ele. Absorto nos ajustes da câmera, em suas trocas de lentes, eu mal tinha reparado na beleza do tigre se mexendo. Bati algumas fotos quando, dando um empurrão no urso com as patas traseiras, o tigre se virou e, entre meus cliques, fugiu pelo corredor em direção ao jardim de inverno e suas palmeiras, perseguido pelo riso suave do monge.

Continuei circulando por entre aquele lugar desconhecido e pessoas em seu cotidiano totalmente sem sentido para mim. Agora eu desejava ser especial como elas. Ter ali um papel! Uma atmosfera de surrealismo beijava nos lábios todo aquele lugar. Ainda estava reparando nos elevadores antigos, perto dos balaustres do mezanino que pareciam a murada de um antigo Galeão, quando um funcionário do hotel chamou minha atenção por ficar zanzando por ali sem destino. Ora, como se com tantos detalhes, tantas coisas para serem vistas, fosse possível agir como eles, desprezando todos os detalhes.

Nesse momento alguém me avisou sobre a encenação da máfia japonesa, um fato que eu tinha decidido não pintar no meu quadro por acreditar que era fruto da minha imaginação. O único episódio que não teria sentido onde nada tinha sentido. Mudei de idéia assim que entendi que aquele era o detalhe mais importante de todos, que compunham aquele quadro. Aquela era a única coisa que certamente não só parecia conhecida como me era realmente conhecida. Já a tinha visto em outra noite. Era uma encenação de um tiroteio que acontecia dentro do hotel. Uma forma de violência gratuita para divertir uma platéia exigente e excêntrica onde japoneses vestidos de smoking trocavam tiros, enquanto os hóspetes se escondia e se protegiam rindo as favas. Um dos homens que estavam no restaurante levou-me para a proteção de uma escrivaninha de madeira. Após algumas xícaras de chá tomadas pelo bigodudo, levantei-me e do mezanino oposto ouvi o rifle gargalhando, matraqueando uma saraivada de balas em minha direção. Enquanto eu negava a minha morte, entendi a mensagem passada a todos nós - Memento mori - Lembre-se de que você é mortal. Viva suas excentricidades, circule por esse mundo sem sentido, pois essa é a vida. Fechei os olhos por um momento e o momento se foi, deixando apenas gravado em minhas memórias detalhes da passagem por aquele lugar.

Dizem que sonhos possuem um significado mas eu, sem a menor dúvida, não faço questão de saber o significado desse, composto por fragmentos de conversas, esperanças, vontades e devaneios. Um lugar que me traz a beleza de poder viajar. E que vai ficar gravado por um bom tempo, em minha tela de cobre, mostrando que a excentricidade das pessoas, a sua indiferença entre o comum e o incomum, o riso fácil e as atividades rotineiras e desprovidas de sentido, para um olhar desinteressado, que realizam com prazer, compõem essa bela pintura surreal, dotada detalhes e vidas, os quais eu espero ainda um dia poder reproduzir em um quadro contando uma história sem pretenção de significar coisa alguma. Apenas um ensaio da imaginação, afundada em suas metáforas.

Talvez esse seja o a minha atividade. O que me fez estar ali. E talvez esse sá seja o meu quadro em sua tela de cobre lisa.
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