20 de agosto de 2008

Alterego.

Esse é um conto que eu ainda estou (estava) trabalhando - isso quer dizer que ele pode (poderia) ser alterado, mas aí eu reposto, se é que alguém se importa com isso! Foi inspirado no estilo de narrativa do Sin City e Neuromance, inspirações de ficção-científica e uma pitada daquele elemento que eu uso sempre.


Alterego
(Conrado Tramontini)

As vezes eu me pergunto que tipo de personagem sou eu. Acho que sou daquele tipo truculento, não tão forte, mas ainda burro o suficiente para parecer um belo monte de carne. Estúpido, durão e com uma idéia fixa na cabeça.
A visão do meu reflexo nas vitrines só confirma isso.
É por isso que detesto essas merdas de passeios noturnos. Às vezes São Paulo consegue ser vazia mesmo quando se vê tanta gente, e aí você se enfia nessas reflexões existenciais sobre quem você é, quem queria ser e que merda você fez. Bem diferente de fechar os olhos e ser. Agora eu sei como ela se sente a respeito desse lugar. Ela, uma pequena tão valente e forte quanto eu mesmo - se não for até mais - mais que agora eu corro para proteger de uns tipos sociopatas e esquizóides para que no final ela acabe simples e friamente agradecendo enquanto, eu satisfeito, vejo a vida me deixar. Foda-se. Se esse realmente sou eu, que seja assim.
As luzes dos outdoors e dos carros refletidas no domo se movimentam como fantasmas e as pessoas passam por você como zumbis.
O centro da cidade é ainda pior. Nínguem aqui trabalha com speed, anfetamina, beta-anfetamina ou SubstanceD, mas se o que você quer é a boa e velha coca, ácido ou crack, aqui é o lugar, não é por menos que esse fim-de-mundo sempre foi apelidado de Cracolândia.
As prostitutas, pouco a pouco foram deixando essa área quando foi feita a re-urbanização pela prefeitura e com a chegada das grandes companhias de tecnologia, como a Microsoft, Oracle e IBM. Os traficantes tinham feito o mesmo, mas reapareceram quando a região voltou a ter vida e clientela, com os operários que trabalham nos domos,e precisavam varar noites acordados e com os playboys que frequentam a noite alternativa.
Não me ligo nessa porcaria. Já acho junkie de mais o fato de ser o meu sangue correndo nessas veias. Pelo menos nas veias que são minhas, o resto é presente de algum defunto que foi parar em Chiba.
Eu estou aqui por que algum idiota resolveu mexer com a pequena errada. É engraçado, durante tanto tempo eu era para ela apenas um defunto, um nome numa lápide e agora eu tenho que correr antes que a situação se inverta.
Não sei exatamente porque querem-na e, sinceramente, não me importa nenhum pouco. É mais ou menos assim que funciona.
Depois de duas esquinas eu vou chegar ao Municipal. É onde ela deve estar e a minha primeira parada em busca de informações. Um vereador tá envolvido nessa merda e eu vou fazer uma visita para trocar alguns dedinhos de prosa.
Quando chego na porta dos fundos, dois caras estão encostados num Civic conversando. Deveriam estar mais atentos com a segurança, o primeiro parece um viking com uma cara amarrada e o cabelo loiro trançado nas costas. Caminhei da esquina até o carro e enquanto arrastava o viking pela trança, apresentei meu convite ao menor. Carreguei o loirinho, pela crina, até a porta para fazer um interrogatório e encontrar o que eu procurava.
A sala está cheia e atenta à sinfônica. Subi até o camarote e em poucos minutos saio de lá com algumas informações, dedos e a contastação de que seis é meu número da sorte, mas não o dele. Alguém cuida da bagunça depois ... enfim, sempre achei Tosca uma ópera muito sangrenta.
Segui até a avenida Paulista, onde a arcologia pulsava como uma lesma gigante e brilhante, cobrindo toda a avenida. Um emaranhado de bancos, empresas de investimento, holdings e residências.
A informação do seboso era que eu a encontraria ali. Alguma coisa a ver com sistema de estatística e investimentos e uma quebra de um ICE militar. Essas belezinhas fritam você em um instante, por isso ela operaria através de um constructo. Essa é a merda de você ser bom nessas coisas. Neguinho cresce o olho em cima de você e tua vida vira mercadoria.
O LCD do meu Oakley já indicou a presença dela. A discreta barra azul no canto inferior exibia "On-line: Casey"
-Olá docinho - eu disse.
O texto correu: "Não teve graça ok!? vc precisava sair sem avisar?"
-Você disse que era urgente.
"você me fez acreditar que tinha morrido, seu Idiota ! Todo esse tempo eu achei q você tinha morrido!"
-Foi melhor assim. Agora aqui tô eu. Me mostra o caminho?
"Claro benhê"
"Quer tijolos dourados?"
-Tanto faz, me fala pra onde ir logo!
O que se seguiu foi uma sequência de direção. Meu GPS particular.
O bastardo me pegou na sala da piscina e a katana deixou um belo corte nas minhas costas que sangrou um rio.
O meu "contador" tava no escritório pensando nos seus números. Confiou tudo o que podia no samurai.
Como era a frase? O inferno para onde eu o mandarei, parecerá o paraíso depois do que eu fizer com ele ... acho que era isso...
Casey ainda estava conectada no deck e catatônica. Trouxe ela para perto da piscina e ela me lançou o olhar. Quando despertou me abraçou o mais forte que pode.
-Você está sangrando muito!
-Eu sei - foi a resposta já afetada pelo choque.
-Porque diabos você tinha que vir? Porque tem que ser tão cabeça dura? Podia ter me deixado sozinha aqui, afinal, eu pedi isso, era para eu estar sangrando.
-Garota, eu prometi que viria. Eu prometi que cuidaria de você, não foi?
-Foi, mas ...
- ... suas unhas ... você usava esse esmalte a última vez que nos vimos...
-O dia que você supostamente morreu?
-Nos dois dias em que, supostamente, eu morri...
Postar um comentário