11 de junho de 2008

Vanilla Sky.

Essa foi a terceira vez que assisti Vanilla Sky. Uns cinco anos devem ter passado desde a primeira vez, e assim como da primeira vez eu não consigo interpretar e escrever o significado do filme para mim. Ele foi claustrofóbico, denso, intenso, representativo e emocionante. Mas vai muito além disso.

Para partir do princípio, o filme é caracterizado pela crítica como uma “mistura de ficção científica, romance e uma torção – o termo distorção não me parece adequado – da realidade” ou então, em termos simples, “erotismo, romance, comédia, mistério e thriller psicológico com uma dose de ficção científica”.

Vanilla Sky, se constrói em torno de David Aames. Apresenta fragmentos de David conversando com um psicólogo numa prisão, para tentar descobrir o que aconteceu sobre um ainda desconhecido homícido e as memórias e sonhos de David, tentando montar todo o quebra cabeça de uma história que começa com um relacionamento físico que ele mantém com Julianna Gianni, e quando, repentinamente conhece uma garota por quem se apaixona, Sofia Serrano. Após passar uma noite toda na companhia de Sofia, Julianna aparece, oferece uma carona para David e em uma discussão ela arremessa o carro, com os dois dentro, de uma ponte. Deixando David completamente desfigurado e agora tenta recuperar sua vida, sua razão e Sofia.

Essa é a descrição mais sucinta que consegui dar do filme e está aqui, porque essa obra, na minha opinião, fantástica, é a base e a razão desse texto e da reflexão que ocorreu depois.

Faltavam ainda alguns minutos da conversa final, mas era mais do que eu conseguia aguentar antes de me levanter, ir até a janela e com os olhos ardendo e o peito comprimido deixar as lágrimas sairem.

Apreciei a poética do momento e, consciente da representatividade desse filme, me enquadrei no contexto. Enquanto observava a rua vazia, via meus cabelos balançando com o vento sobre meus olhos - me lembrava a cena final -, embaixo de um céu nublado, uma analogia ao céu de baunilha (Vanilla Sky) retirado de um quadro do Monet, para construir, a pedido do próprio David Aames, o ambiente para o seu sonho lúcido.

É curioso como algunas coisas trabalham emoções de uma maneira profunda e repetida. Com certeza, todas as vezes que eu assistir a esse filme, vou me sentir do mesmo jeito. Talvez a mesma coisa todas as vezes que eu me lembrar daquele garoto sentado na mesa da lanchonete, desenhando naquele papel.

Disfarcei as lágrimas e entrei no banheiro. Enquanto David olhava nos espelhos e via o seu rosto distorcido. Eu olho no espelho e vejo como eu sou. Sou a pessoa que sou agora, diferente de quem fui ontem. Cabelos compridos, barba por fazer e lágrimas nos olhos.

Apesar de ter sobrevivido ao acidente, David perdeu a vida, como ele conhecia, no momento que entrou naquele carro. Nem David, nem eu, não estavamos sozinhos naquele carro.

Desculpa o excesso de comparações, talvez, aos seus olhos, nem sejam tão dignas de serem feitas, mas para mim são completamente coerentes.

A Sofia de David era uma pessoa que ele idealizou sobre a Sofia real. Feliz, leve, divertida, carinhosa, apaixonada. Não que ela não seja essa pessoa, e a maior revelação é que ele a conheceu apenas por um dia.

Julianna, por outro lado, foi vista como uma bela mulher, mas que não estava feliz. A descrição dela por Sofia foi como sendo “a mulher mais triste que já segurou um martíni”. É a antítese de Sofia, mas que, tomando uma observação filosófica, foi constantemente vista na mesma pessoa que Sofia. Uma forma – talvez somente minha – de dizer que podem ser a mesma pessoa, depende apenas da posição que se quer assumir. Escolha e não designo.

No fim do filme descobre-se que David, depois do acidente, não aceitou a sua condição. Encontrou o seu melhor amigo e Sofia em uma única e mal sucedida vez em uma danceteria e após isso se matou para que, uma empresa que contratou, congelasse seu corpo e o mantivesse em um estado constante que eles chamavam de “sonho lúcido” onde ele recuperaria suas face e viveria uma vida feliz com Sofia, mas que para David havia virado um pesadelo. Até aquele momento.

Sendo uma obra de arte, o principal está nos 1/3, que nesse caso é composto pela noção de que são nos detalhes, minuto a minuto, que nossa vida é vivida, e que em qualquer um desses minutos, tudo muda de sentido. Por isso, toda vez me coloco no lugar de David e isso tudo me levou uma, e agora outra, vez a pensar na minha vida, as escolhas e consequências – positivas e negativas – e a seguir em frente.

Sofia, do grego "sophia" (Σοφια), é o que detém o "sábio" (em grego "sophos" (σοφός)).



por: Conrado Tramontini
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