6 de fevereiro de 2008

Sr. Otimista.

Sr. Otimista

(Conrado Brocco Tramontini)


Logo que passou pela entrada do clube, teve a impressão de assitir a sua vida no holograma que projetava imagens logo acima de sua cabeça. Os tons pastéis, melancôlicos, se misturavam com a sensação de que sua vida estava viranda de cabeça para baixo num ritmo desenfreado. “Um belo de um idiota” pensou ele, sobre como se sentia ... “uma sucessão de fracassos”.

Os minutos eram marcados a cada 100 batidas do drum n’bossa de “Vou festejar” que vazava das picapes. Ensaiou por duas vezes o refrão, acompanhando alucinado a psicodelia incessante dos lasers dos hologramas ao lado do palco e no amarelo vivo das cores dos paineis de nêon.

Reparou na morena que o fitava no fundo da pista e se afastou por causa das lembranças. Engoliu outro speed. O terceiro desde que saiu de casa.

Olhou em volta procurando o bar. Reparou em todos aqueles nêons e luminosos, reparou nas garotas dançando despreocupadas, mergulhadas na luz vermelha embaixo do gigantesco “M” da Marlboro. Mais no fundo uma propaganda de uma vodka vagabunda pulsava sobre o bar, viu a loira que agitada servia os eufóricos com toda aquela porcaria. Encostou para reparar seus movimentos suaves e ritmados enquanto ela teclava os pedidos no LCD.

-Vai pedir algo ou vai ficar só apreciando a paisagem? – ela o inquiriu apressadamente.

-Aham, como se fosse um pôr-do-sol na orla...

Sorrindo ela se pôs de costas e voltou a atender os clientes. Pensou em outro Speed e que talvez o corpo não aguentasse a mistura.

“Excelente ... a pior coisa que pode acontecer hoje é passar essa noite consciente”, voltou até a loira.

-Quais as chances de você pular do bar para a pista comigo?

-As mesmas de você pagar meu salário.

-Você não me parecia ser tão superficial.

-Olha aqui gatinho, porque você não tenta uma dessas patricinhas que estão na pista?

-Você tá me gozando, você já ouviu a conversa delas?

-Essa noite sem chance. Volta aqui quando o movimento diminuir, eu te acompanho em uma cerveja.

Aquele papo era um bom presságio de que teria uma conversa interessante. Preferiu não ter expectativa. Ultimamente um bom presságio não passava disso, de um presságio. Voltou para a pista com o terceiro Speed escalando por sua espinha, direto até o cortex.

A batida de “De alegria raiou o dia” entrava como um martelo pelos seus ouvidos. Girou tonto, contemplando todos aqueles rostos que gradualemente ganhavam uma aparência conhecida ...

“Idiota!” pensou ele outra vez. Quanto tempo mais vai aguentar? Encostou nos fundos, apoiado no gradil dos camarotes. Toda aquela agitação, não passavam de um bando de crianças brincando de caçar. Não estava ali para isso.

-Olá! – um macacão branco, dentro uma garota de cabelos loiros, curtos e com tatuagem de estrela veio até ele.

-Foi você que estacionou o carro na casa do meu irmão não foi? – ela perguntou

-Seu irmão?

-Ah, tudo bem, deixa pra lá – disse ela acenando já de costas para ele.

Lembrou da outra vez:

-Oi, você mora na Zona norte? – uma garota havia perguntado.

-Não, por quê?

-É que você tem cara de quem mora na Zona Norte.

-Você mora lá?

-Não ... deixa pra lá – ela respondeu.

“Que porra de cantada é essa?” pensou ele “um dia vou entender essas puxadas de assunto”.

Desistiu de continuar ali, passou pelo bar para se despedir da loirinha. O terceiro speed misturado com a vodka barata bateu como uma bomba e agora aquele lugar tava agitado demais para a fossa que ele tava querendo curtir.

-Escuta, você é uma princesa, sério mesmo.

-Pelo amor de deus, não faça eu pegar nojo – disse ela começando a sorrir outra vez.

-É sério, está aqui na sua torre, nesse castelo infestado de gente excêntrica e maluca. Todas cientes de que são as mais especias, assim como todas as outras.

-Garoto, você é um artista ...

-Não sou não, eu sou é um idiota, é isso que sou. Você vai ver isso.

-Idiota todo mundo é. Eu sou, você é e meu chefe merece até um troféu por ser um idiota. Ele é um idiota completo.

-É pré-requisito quando se é chefe. Olha, sério, vou deixar você trabalhar, isso aqui não tem nada a me oferecer.

-Fica aqui e eu te pago aquele cerveja, senhor idiota.

-Acho que devia mudar para senhor otimista, mas eu topo a cerveja.

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