30 de novembro de 2007

Chimpanzés

Existe uma frase que diz, em tradução livre, que a cura para o amor é o amor retribuído. Talvez eu possa inverter a frase e afirmar que a ausência de amor retribuído é a causa para a doença do amor e por amor retribuído não se entende amor vindo no outro sentido – ser amado por alguém – mas a aceitação por alguém do amor que você sente por, a autorização e retribuição desse amor, não necessariamente com outro amor.

Me permitam-me uma digressão. No filme Waking life um dos personagens traça um comparativo entre a produção intelectual da Grécia e Roma antiga com a sociedade atual, e conclui que desde então pouco evoluímos. O que, segundo ele - com quem concordo - nos coloque no mesmo nível que super chimpanzés, fechando com a indagação sobre o que nos mantém nesse nível nulo de evolução pessoal: medo ou preguiça?

Uma base para uma resposta, se é possível formula-la, está no texto “Um sóbrio em Salvador”, onde o autor narra sobre sua passagem pelo carnaval em salvador e observa uma estranha necessidade, comum a massa, de obter prazer em tudo o que faz. O autor, estando naquela festa, se sente compelido a beijar e beber "tem que beijar", "tem que beber" excitam os super chimpanzés - agora também hedonistas - movidos pelo característico prazer instintivo e longe do prazer racional, que é negado a o autor, que questiona: "como é que pode ser bom, se para ser bom, tem que beber?" e que, como foi narrado por André Medella em " Carnaval – e ô... e ô", é encontrado longe da superficialidade da festa de carnaval, em simples atividades e observações do cotidiano que hoje muitos se negam a fazer – por medo ou por preguiça – e se afundam na entrega hedonista onde “todos são levados a ‘aproveitar a vida’ como se a morte espreitasse a todos na quarta-feira de cinzas”.

Com isso retorno ao amor e sua retribuição, que é negada, muitas vezes involuntariamente, porque chimpanzés que somos, estamos todos afundados em nossos hedonismo egoísta, em nossa tão constante e absoluta busca da felicidade imediata, vinculada ao prazer, acreditando que ela é algo somente nosso e que esteja presente na superficialidade da vida. Ficamos feito cães correndo atrás do próprio rabo e então involuntariamente - por vezes até voluntariamente -, abandonamos o exercício da reflexão, do pensamento e compreensão sobre o que é que nos faz bem, sobre o que é realmente para nós a felicidade e nesse círculo vicioso, nos jogamos outra vez em nosso hedonismo, que não nos trás a cura completa para o amor e novamente nos envia a buscar mais hedonismo, acreditando que a felicidade vai estar ali onde todos dizem que estará, e não a enxergando na loira – nesse caso a cerveja – compartilhada com outro, no convívio social ou no momento de meditação, na realização de tarefas que nos agradam, em simplesmente ouvir uma banda tocando, ver um cachorro brincando, tocar um violão ou observar o mundo girando, não a enxergamos ou valoramos por não estarem em nossos umbigos.

Só para constar: O hedonismo [Do grego hēdonē "prazer"]. É uma teoria ou doutrina filosófico-moral que afirma ser o prazer individual e imediato o supremo bem da vida humana (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hedonismo)

Referências:


Um sóbrio em salvador (Pim – 10/03/2007),
http://www.tribuneiros.com/novo/display.php?acao=mostra&id=49


Waking life (Richard Linklater
– 2001)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Waking_life

Carnaval – e ô... e ô (Medella – 01/03/2006)
http://www1.fotolog.com/medella/17140577

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