28 de setembro de 2007

Escolhas.

Escolhas
(Conrado Tramontini)

Não existe peso maior para os ombros de um homem, que a responsabilidade pelos seus atos.
Você pode passar a vida toda buscando a liberdade, mas quando fica cara-a-cara com o abismo da responsabilidade, no caminho que leva à liberdade, não tem um único homem consciente, que não treme por dentro. Até as mais estúpidas criaturas pensam - se é que podem faze-lô - em voltar para o ventre da mãe.

Com meu filho, aquele rapaz que adotei, não foi diferente - sim, eu o adotei porque diferente de quem me criou e me colocou nesse mundo, eu não posso ser pai. Esse foi um de meus castigos.

Ele estava na casa dos 20 e experimentava o amadurecimento, as escolhas, o sabor do amor e a confusão que ele causava. Ah! o pobre do garoto estava ficando maluco... Eu me divertia assistindo enquanto ele se enfiava em confusão. Mas ainda só podia observar, não podia ajuda-lo.
Até o próprio coração zombava dele, enquanto ele só queria um amor para substituir a perda da mãe que tinha partido a alguns meses sem dar aviso. 

Em uma dessas situações ele ficou atraído por uma garota, lembro bem da mocinha, uma magrela, de ruivos cabelos encaracolados e algumas sardas no rosto. A danada era inteligente demais e viva, céus, como era viva...

Meu garoto achou mesmo que iriam se dar bem, mesmo que não fosse amor, achou que os dois poderiam dar certo. O sacaninha passava horas conversando com ela, sempre queria ajudá-la, mas a ruivinha não dava muito espaço. Riam a beça. Meu garoto gostava dela, eram bons amigos.

Com essa garota por perto eu nem precisava fazer nada. Ainda acho graça nesses dois, ela era infernal! que olhos aquela garota tinha e que senso de humor. Rápido se tornaram grandes amigos e o panaca tava tão fissurado na razão que esqueceu que tinha um coração.

Eles começaram um romance, mas a garota ficou muito insegura quanto aos sentimentos dele - como eu disse, com a ruivinha por perto eu não precisava fazer muita coisa - ela, que incentivava o romance, passou a desconfiar, e insegura, trocou o verdadeiro pela fantasia do perfeito e o romance dos dois acabou.

Para ser exato, foi nesse momento que eu o conheci.

- Sera que não percebes quão farto eu estou das dores e do peso da culpa, da responsabilidade? Não percebes que sou culpado em meu próprio julgamento? - ele esbravejou.
- És tão cego quanto eu, seu tolo. Nós dois somos culpados por nossas escolhas, e exatamente por isso, posso ajuda-lô.
- A vida é bem mais divertida quando não sois responsável pelos seus erros - ele disse, decidido que queria que eu o ajudasse a ser feliz - Estou cansado de errar, mesmo que tentando acertar.
-Algumas pessoas possuem responsabilidades que não conseguem carregar sozinhos. É como um leproso, por melhor que seja, a doença contamina quem está perto e ela tende a se isolar. Uma pena rapaz! - foi a minha resposta - mas como posso te ajudar?
-Eu não quero magoar as pessoas com minhas atitudes, não quero mais ter que escolher.
-Pois a partir de agora, faça o que quer fazer, deixe que os outros decidam depois se é certo ou errado.

Viveríamos uma simbiose, ele propôs. Ele se guiaria por mim e, em troca, eu viveria a sua juventude. Dia após dia, a cada decisão, eu o alimentava nas escolhas. Em todos os relacionamentos, manteve só o desejo. Como um bloco de mármore, eu tirei os excessos e revelei o meu Davi imperfeito em sua perfeição, como o mármore ele não sentia, era frio como a pedra, ignorava o livre arbítrio.

A coisa seguiu assim por muito tempo. Festas, romances descompromissados, sem gostar ou sentir, sem promessas e juras, sem expectativas nesse vida breve.

Eu o apresentava a grandes festas luxuosas e lhe fornecia lindas garotas. 
Concedi a ele opção por prazeres praticamente ilimitados, que ele aproveitou bem.

Com o tempo aquilo não mais bastava, faltava algo e eu deixei que os dois se vissem novamente. Foi quando ele percebeu que ainda amava de verdade aquela garota, que a tinha magoado e magoado muitas outras pessoas e entendeu que até a dor do amar, a busca por ele e a felicidade era melhor que nenhum amor.

Eu gostava de ver aquele casal juntos, era bonito de verdade. Eu poderia ajudá-los a ficar juntos, poderia até mante-lo amando, mas não foi isso o que ele me pediu; a vontade dele, o pedido, foi para que ele não mais tivesse que decidir e foi isso o que ele teve, prazer no lugar de vontade, desejo no lugar de livre arbítrio - o presente de Deus.

Então, perdida, foi a vez da garota me procurar.

-Não suporto ve-lô vivendo assim. Não suporto! Minha vida depende de seu amor ... desejaria que ele morresse, por estar tudo bem com ele! – ela me disse.
-Cuidado com o que você pede em minha presença mocinha.
-Por que? Você é um anjo? Vai tornar isso realidade? Se sois um anjo, então peço que tire de mim esse amor. Prefiro também ser uma pedra a amá-lo sozinha!
-Anjo? ... dizem que eu já fui um. O preferido de Deus. Mas hoje não sou nada além do próprio demônio.

A coisa seguiu e nos últimos dois meses eu só assisti ao sacana se definhando enlouquecendo. Ele não aguentou o vazio da vida. Deixei que se aproximasse da garota outras vezes, como ele pediu, mas no estado que ele estava isso piorava as coisas, então ele voltou com outra escolha.

-Permita que eu a ame mais uma vez! Permita me sentir o que é estar em seus braços.
-E o que pode me oferecer, para isso, que já não seja meu?
-Nada mais tenho além do amor.
-Você me oferece algo que não tenho, mas que também de nada me serve.
-Então leve o que já tem de uma vez e acabe com esse sofrimento. Vá para o inferno sem mim, ou me deixe ir sozinho. Por que haveríamos de ir juntos?

Foi o que aconteceu nesse dia. Ele a procurou, tentou contar o que sentia, tentou ... esperou pelo amor retribuído, mas ela somente o olhou friamente, sorriu e disse que tudo aquilo havia passado e que decidiu que não mais, o amava.

Depois disso, o amor ignorado se tornou sufocante e mortal, lenta e dolorosamente ele se asfixiou. Dizem que o coração implodiu sob o vazio...

No cemitério, enquanto eu observava, ao lado do túmulo, a garota me reconheceu, afastado, perto de uma árvore.

-Monstro - ela me disse - é o que sou, assim como é o que você é... Nada além de um monstro. Sabia o que ia acontecer e ainda sim fizeste o que pedi! Para que? O que ganha? Coleciona almas?
-As escolhas, elas não foram minhas. Não escolher ou escolher errado, ainda sim, são escolhas e elas foram feitas por ele, entre as opções que eu lhe dei. A você, poucas opções restaram. Não se culpe... você apenas sofreu as conseqüências de escolher tarde demais a si própria...

O homem não consegue se isolar dos seus sentimentos, ele pode até ignora-los, mas cria algo como uma caldeira que mais cedo ou mais tarde estoura dentro dele. Eles são tão consumidos pelo desespero que não enxergam que eu não existo realmente, não sou nada além da mente e dos corações dos tolos, o subproduto da queima dessa caldeira. Sou o que vive e se alimenta no vazio de quem cede a luxúria e, não mais quer amar, que desiste da felicidade. Sou o que morreu dentro dele, quando ele voltou a viver com o amor, e o que nasceu dentro dela, quando ela morreu sem o amor, diante de seu próprio túmulo.

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