29 de agosto de 2007

Sobre a dor...


Vou cometer uma crueldade em citar VALIS e Philip K. Dick, para na verdade não comentar sobre o livro ou o autor. Para não me perder, o máximo que vou fazer é que é um excelente autor, com excelentes livros e VALIS é um deles (depois falo mais sobre eles).

Em VALIS, Philip K. Dick cita um estudo feito por Theodor Reik sobre o masoquismo, para explicar o comportamento que uma personagem assume, após ter cancêr, de se aproximar da dor e se tornar amargurada. Vou citar o estudo aqui, porque as pessoas estão cada vez mais se aproximando dessa situação e desse comportamento.

O estudo diz que "O masoquismo está mais disseminado do que imaginamos porque ele assume uma forma atenuada. A dinâmica básica é a seguinte: um ser humano vê algo ruim que está se aproximando de modo inevitável. Não há maneira de essa pessoa deter o processo; ela está indefesa. Esta sensação de falta de segurança gera uma necessodade de obtenção de algum controle sobre a dor que está por vir - qualquer tipo de controle serve. Isso gaz sentido; a sensação subjetiva de insegurança é mais dolorosa do que a angústia que virá. Então a pessoa assume o controle da situação da única maneira aberta para ela: ela consente em provocar a angústia que virá; ela a apressa. Essa atividade de sua parte promove a falsa impressão de que ela gosta da dor. Nem tanto. É que simplesmente ela não consegue mais suportar a sensação de estar indefesa ou a suposta sensação de estar indefesa. Mas, no processo de obter controle sobre a inevitável angústia, ela se torna automaticamente anedônica (que significa ser incapaz de estar indisposto a apreciar o prazer). A anedonia vai se instalando sorrateiramente. Ao longo dos anos ela toma o controle dessa pessoa. Por exemplo, ela aprende a recusar a gratificação; este é um passo no processo angustiante da anedonia. Ao aprender a recusar a gratificação, ela vivencia uma sensação de autodominação; ela se tronou estóica, disciplinada; não dá margem a impulsos. Ela possui o controle. Controle sobre si mesma em termos de seus impulsos e controle sobre a situação externa. Ela é uma pessoa controlada e controladora. Em pouco tempo começou a lançar ramificações e está controlando outras pessoas, como parte da situação. Ela se torna manipuladora. Naturalmente, não tem consciência disso; tudo o que pretende fazer é reduzir sua própria sensação de impotência. Mas, nesta tarefa de reduzir essa sensação, ela põe insidiosamente por terra a liberdade dos outros. Entretanto, não tira prazer disso, nenhum ganho psicológico positivo; todos os seus ganhos são essencialmente negativos."
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