14 de julho de 2007

ATUALIZADO -- Outra noite de chuva (versão final)

Orgulhoso! Esse conto foi o 8 finalista do III Concurso Literário de Suzano.



Outra noite de chuva.

(Conrado B. Tramontini)

Ela estava deitada com o bebê ainda sobre o peito, quando me viu entrar no nosso quarto, escuro desde a falha no sistema elétrico.

–Ainda assustada, Maria? – eu perguntei.

Nos últimos dias ela andava com os nervos a flor da pele. Começou a se impressionar fácil com qualquer barulho e vinha tendo alucinações causadas pela febre.

–Está tudo bem amor, já estou me acostumando – ela disse, tentando me acalmar.

–É só chuva. Desde que o mundo é mundo chove, e além disso, a gente deve estar numa temporada de chuvas. Deve ser o efeito estufa, o El niño, essas porcarias dessas coisas, tá?! Não tem nada de errado nisso.

–Mas que porcaria! Por que você não acredita em mim? Eu sei que não é só a chuva! Tem alguma coisa ruim acontecendo! - ela bravejou e caminhou para a janela do quintal.

Lá fora o céu do meio dia estava com a cor de prata envenenada do anoitecer. As casas perderam o abastecimento de energia elétrica por causa de uma falha em um trecho que estava totalmente isolado pelas chuvas. Pelo menos foi o que disse um vizinho que havia chego de viagem no segundo dia de chuva.

Estamos desde então sem televisão, sem telefone, sem jornal ou qualquer coisa desse tipo. As ruas ficaram vazias. Não se tem muito o que fazer nessa cidadezinha com o tempo assim e não vemos ou ouvimos alguém tinha 8 dias. Chovia assim a 14 dias.

Fica difícil saber o que acontece além da nossa porta, e por isso ficamos trancados aqui dentro. Ainda mais isolados.

A impressão que dava era que havia começado o arrebatamento e todas as boas almas haviam sido levadas pelos anjos e nós ficamos para trás.

Ora não fomos tão ruins assim, eu tentava racionalizar as coisas.

Um raio direto cortou a minha visão do gramado e dos arbustos e árvores que dão para o fundo de casa, com um clarão que, iluminando nosso jardim, me fez lembrar que o verde já foi mais verde do que aquela cor triste e acinzentada. É incrível como agente se adapta fácil às coisas que a nossa mente processa. Eu também tinha esquecido que existe um mundo além daquela casa em que estavamos infurnados e agora com todas as histórias que eu ouvi serem contadas pela voz suave e confiante da minha esposa, eu já acreditava também em “seja-lá-o-que-for”.

Não é esse clima estranho que me assusta tanto. A culpa é do aquecimento global pensei, pelo menos é o que eu acredito que seja. É a única explicação lógica. Mas o estado dela sim, isso me assusta. Ela insiste que tudo isso tem a ver com ela, e vem tentando me convencer que é uma espécie de presságio, assombração, ou seja-lá-o-que-for.

Para falar a verdade isso começou na gestação, quando eu acordei no meio da noite e encontrei ela sentada no canto da cama conversando, abaixada, com "seja-lá-o-que-for". Assim que me viu acordando, ela fez sinal para se afastar. Eu tenho certeza do que vi, mesmo não estando bem acordado naquele momento.

-Eu estava rezando – ela explicava. Rezando uma ova. Eu tinha certeza que algo tinha respondido para ela. Sou cético, agnóstico, seja qual for o nome. Não acredito nessas bobagens todas ... bem, pelo menos não acreditava, mas como eu dizia, é incrível como nossa mente se adapta as coisas que nos cercam.

Na primeira semana, depois de o bebê nascer, ela começou novamente com essa conversa. Eu a levei a um médico, ainda muito a contragosto dela.

–É um quadro de depressão pós-parto. É comum diante do estresse do nosso dia-a-dia e em uma cidade grande. A mãe rejeita a criança e alega que ela, a criança, não é bem vinda - disse o médico – como toda depressão e transtornos de pânico e ansiedade, podem vir acompanhada, em um estado avançado, de despreendimento da realidade.

Antes eu acreditava que o homem de antigamente se agarrava facilmente ao sobrenatural. Hoje, tanto tempo isolado da tecnologia, vejo que é o homem moderno que é facilmente enganado por ele mesmo. Arruma explicação lógica e plausível para tudo, ciência e mediciona.

Depressão pós parto uma ova! ela não rejeita esse bebê é a única coisa que vêm na minha cabeça vendo os dois deitados juntos na cama. Ela com a mão protegendo a criança, por instinto, sabendo que algo estranho está acontecendo aqui.

Um latido do cachorro a fez acordar assustada novamente.

–Que foi isso? - perguntou.

–Calma amor, é só o cachorro. Deve ter se assustado com algum bicho.

Um novo raio acompanhado de um trovão seco rompeu o ar lá fora. Seu estrondo demorou quanto tempo? 15, 30 segundos? As janelas de vidro tremiam com o barulho. Os cachorros que latiam igual doidos grunhiram apavorados e se calaram.

Confesso que minha espinha gelou. Foi como num filme de terror. Amaldiçoei M. Night Shyamalan por ter colocado essas idéias malucas na minha cabeça.

Ela me olhou assustada. Entendi o pedido daqueles olhos negros e arregalados. Fui até a janela ver os cachorros.

Phobos ... pronunciei a palavra grega para medo, emprestada do livro que lia, para tentar explicar porque eu tremia e sabia que iria tremer mais ainda quando chegasse na janela.

Aquela visão me apavorava. Meus olhos se encheram de lágrimas e meus braços arrepiaram. Olhando pela janela a rua continuava vazia e escura, banhada pela pouca luz que passava. Lá fora o cachorro não estava mais no jardim e o vento parou.

Em pouco tempo a chuva que caia durante 14 dias cessou e virou apenas uma garoa fina e tudo foi escurecendo mais com as nuvens que aumentavam e ganhavam um tom alaranjado.

No quarto o bebê ainda dormia. Maria ainda tremia.

Céus, como o clima tava tenso ali naquela casa. Eu realmente tava ficando impressionado com toda aquela história. Desde criança detestava olhar pela janela nessas situações. Sempre imaginava que ia levar um susto porque alguém ia aparecer do nada na janela.

O medo só precissa de uma brecha dessas para projetar alguma coisa. Eu podia jurar ter visto alguém olhando para mim do telhado do vizinho da frente. Gelei outra vez e dei um salto para trás.

–Não precisa se assutar. Não vai acontecer nada com você - ela apareceu de pé ao meu lado, sem eu perceber.

Será que ela pensa que isso me tranquilizava? Na verdade me deixava mais nervoso por dois motivos, primeiro porque eu estava pouco me lixando para mim, estava preocupado com elas. Segundo porque ela falava com uma certeza celeste. Algo como uma premonição. Como podia ter tanta certeza?

Olhei novamente mais de perto e não vi nada. Era hora de olhar pelos fundos.

As árvores balançavam com o vento a um quarteirão da nossa casa. Eram enormes árvores centenárias que se estendiam por não sei quantos quilômetros de mata adentro.

O clarão de outro relâmpago me fez quase arrancar a cortina.

Depois outro trovão seco.

–Agora vem o último - ela disse. Branca como um fantasma e assustadoramente certa. Na sequência mais um trovão esquisito fez minha carne descolar dos ossos. Eu tava realmente em pânico e visão dela não estava melhorando nada. Deitada naquela cama, com aquele bebê no colo e um sorrisinho no rosto. Aquilo tava de arrepiar, ela sabia o que tava acontecendo, quando ninguém poderia saber.

–Garota, isso tá me assutando!
Expliquei que no começo eu aceitava a explicação médica. Depressão pós-parto. Era óbvio que ela estivesse fantasiando tudo aquilo. Não existem fantasmas, monstros e extra-terrestres. Tudo isso era claramente um monte de besteira para mim. O sobrenatural era algo que a ciência ainda não tinha explicado eu pensava, para me convencer de que o que eu via e ouvia nos últimos dias era apenas imaginação. Mas nos últimos dias eu sabia que alguém me observava, sentado em minha cama, enquanto eu lia na escrivaninha. Sabia que assim que eu levantasse a cabeça, depois de enxaguar a boca no banheiro, e olhasse pelo espelho, alguém estava olhando sobre meus ombros. Sabia também que ali fora, embora eu não visse, o quintal estava cheio de alguma coisa.

-Eles estão aqui?

A resposta dela foi um aceno com a cabeça e silêncio, os olhos arregalados dela fitaram a janela atrás de mim. Lá fora tudo foi engolido pela escuridão.

Agora, contando isso, meus olhos ardem e meus braços se arrepiam. Sinto um frio que gela minha espinha. Lembro do som que não era um som, um último estrondo seco como do vento rasgando a carne, marcou o momento em que os cachorros pararam de latir, grunhiram pela última vez e se calaram pra sempre.

O trinco da porta e as janelas sacudiram, corri para abraça-la quando a porta e as janelas simplesmente foram arrancadas dos apoios pelo ar que me ensurdeceu e me arremessou na parede. Escuridão e nada mais.

Pela janela na minha frente eu vi os olhos da noite. Perguntei quem eles eram e o que queriam. Ela disse apenas que não sabia ... como poderia saber? Disse também que achou que era só um pesadelo. Mas eles voltaram durante várias noites. Eles apenas estão ali, atrás de você, enquanto você estende a roupa no quintal, enquanto você dirige a noite, enquanto está penteando o cabelo ou está escovando os dentes... Eles simplesmente estão ali atrás de você quando você abaixa para cuspir na pia, ou quando você abre o armário para pegar a escova de dentes.

Por isso ela quebrou todos os espelhos.

–Você vai ter 7 anos de azar - eu brinquei no dia

Com um olhar tão morto e vazio como a escuridão lá fora, ela retrucou - tenho, no máximo, 7 dias - depois pintou tudo o que refletia a sua imagem. Colheres, facas, torneiras. Tudo.

Eu só queria protegê-las. Olhei outra vez pela janela. Dois deles estavam agachados na grama, ao lado do cachorro que não iria latir nunca mais. Eu fiquei paralisado de medo.

Atrás de mim, dois baques violentos e uma corrida apressada, eu voei em direção a ela pra tentar protegê-la, mas fui jogado pra longe. Fiz mais duas ou três investidas, sem sucesso. Quando olhei, ainda deu tempo de vê-la sorrindo uma última vez e a expressão de terror em seu rosto manchado de sangue.

Hoje a polícia diz acreditar que eu matei as duas, que encontraram sinais de luta e sangue em mim e na casa. Uma vizinha disse a polícia, também, que conversou com ela algumas vezes, por telefone, antes da pane. Ela ligava assustada de madrugada mas não dizia o que era. Claro que vão dizer que sou o culpado. Cada um acredita na mentira que lhe é mais plausível. Foi por isso que vim parar nessa clínica por causa do que contei, mas estou certo que não imaginei tudo isso.

É a verdade que você teme, a que você foge, e a verdade é que eles estão por aqui. Estão ao meu lado, estão ao seu lado.
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